Pouco antes de a Guerra Civil quase dividir os EUA em dois, o Exército imperial da Rússia enfrentou os Exércitos aliados de Grã-Bretanha, França e Império Otomano nos campos de batalha da Península da Crimeia, naquela que se tornou a primeira guerra moderna.

No início do conflito, em 1853, a revolução industrial já avançara, criando paisagens urbanas densas, novos métodos de manufatura e enormes ganhos em produtividade. Mas, ao lado do avanço da indústria, também ocorreu uma revolução na arte da guerra.

Os trens transformaram a logística, o telégrafo tornou mais ágil as comunicações e os rifles e outros armamentos modernos permitiram que massacres ocorressem numa escala inteiramente nova. Os campos de batalha da Guerra da Crimeia testemunharam esse terrível fato: 25 mil britânicos, 100 mil franceses e um milhão de russos morreram.

A carnificina só não foi maior porque os avanços na área militar não haviam chegado para todas as partes em conflito. Na Guerra da Crimeia, homens com espadas e lanças lutavam contra homens com rifles e artilharia, no que se tornou o batismo sangrento do mundo moderno e o funeral mórbido da era pré-industrial.

A desigualdade em termos de capacidade militar foi uma das razões pelas quais a Guerra da Crimeia entrou para a história como um monumento à incompetência militar.

Os oficiais sacrificaram desnecessariamente vidas de soldados mal preparados e mal equipados, expondo-os a adversários muito melhor armados - uma situação grotesca imortalizada no poema de Tennyson, Charge of the Light Brigade ("Carga da Brigada Ligeira"), em que ele se refere a um ataque frontal suicida contra um regimento de artilharia russo por uma unidade de cavalaria britânica.

Poucos episódios ilustram tão profundamente a insanidade das batalhas nessa guerra do que um grupo de espadachins a cavalo investindo contra uma saraivada de tiros de canhão. Ao contrário de guerras passadas, os soldados na retaguarda não estavam ao abrigo de tais horrores do campo de batalha.

A Guerra da Crimeia também foi o primeiro conflito a ser coberto em tempo real pelos jornalistas, que enviavam suas informações por telégrafo para Londres, Berlim e Paris. Os cidadãos cujos filhos arcavam com o custo da guerra ficavam a par do que ocorria na frente de batalha, incluindo a incompetência e os revezes de seus Exércitos.

E as notícias não chegavam apenas em palavras, mas também em imagens. Tecnicamente, as primeiras fotos de um campo de batalha foram tiradas durante a guerra entre EUA e México. No entanto, o fotógrafo britânico Roger Fenton é considerado o primeiro fotógrafo de guerra, distinção conquistada pelas imagens da Guerra da Crimeia que ele captou com sua câmera.

ROGER FENTON 1855

Hoje, a Crimeia, península ao sul da Ucrânia, retorna ao noticiário. Depois que revolucionários pró-europeus depuseram o presidente Viktor Yanukovich, forças aliadas à Rússia assumiram o controle do Parlamento regional na Crimeia e ameaçam uma secessão.

O presidente russo Vladimir Putin apoiou facções favoráveis a Moscou na Ucrânia, que se concentram especialmente na região oriental do país, e deslocou forças russas para a Crimeia.

Claudio Peppe

Fonte Compilação. Estadão

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